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sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Je dors sur des roses de la mort - Le ciel bénit tous nos ébats.





A chuva se delonga a passar, o frio toma conta de meu corpo, mas eu prefiro me acostumar com essa sensação: o frio dilacerante é o mais próximo da morte que eu posso ficar, não que eu goste disso, na verdade ela, Claire, ela sim, ela amaria sentir isso, deve estar amando seu atual estado, sempre teve essa fascinação pela morte, adoração por morrer, sempre sentiu prazer pelo proibido, desde pequena quando brincava com as facas da cozinha e minha mãe se assombrava, afinal de contas, ela só tinha oito anos, isso não poderia ser normal, mas, o que é normal? Ele, Tomas, como eu, não via graça em morrer, era um cético incontestável, repudiava todo tipo de adoração, na verdade acho que ele adorava não adorar, o que será que ele descobriu? Será que estava certo quando dizia que o céu não existia, que apenas iriamos virar carne podre e alimento para seres asquerosos que em vida tendíamos a repudiar? Eu quero muito descobrir, mas não poderei fazê-lo, ainda não.

Devo algumas explicações para meus pais, meus queridos e inocentes pais sempre tão preocupados com a conduta um tanto estranha de seus lindos filhos, eram tão diferentes de todos os outros, e eles só queriam que fossem iguais, será que agora estão aliviados? Demonstram tanto ódio que mal posso enxergar a dor, mas devem senti-lo, devem também achar que sou a única ‘sã de seus filhos, ora, a linda menina era obcecada pela morte, o belo rapaz era gótico e ateu – o que chega a ser um sacrilégio dentro desta casa – porem, acredito que para eles nada pode ser mais profano do que o que cometeram, a poucas horas atrás, no quarto ao lado. Enquanto a mim? Bem, não sou melhor nem pior que meus irmãos, a diferença é que eles foram antes de mim, em verdade sinto-me até angustiada, não queria ter ficado para trás, os amava o bastante para ir com eles. Essa era a minha obsessão: amá-los, o que era muito natural para mim, eles me pertenciam, o que eu não sabia é que eles achavam que se pertenciam, então, logo não sei no que devo acreditar, devo acreditar em Clarie que adorava tanto a morte que dizia que nos encontraríamos outrora em outro plano ou em Tomas que dizia que tudo acabava com a morte? Ah, que minha gentil irmã esteja certa, não quero viver, ou morrer sem eles, eles são meus e por serem meus são parte de mim. Devo deixar claro isso, dar um pouco de paz para meus pais, em alguma coisa eles precisarão acreditar para seguir em frente, seja no ódio, na incompreensão ou no perdão. Mas, para isso preciso contar algumas coisas, coisas que nunca foram ditas, os doces segredos que nos juntavam, que nos unia, e eles deveriam saber, ma mémoire, mon hisoire sans égard, mon passé que tu enterre.

Conheço Clarie e Tomas desde o dia de seu nascimento, a exatamente dezesseis anos atrás, até eu entrar na faculdade nunca tínhamos nos separado, nem quando fomos mandados para o colégio interno, Clarie dormia em minha cama calmamente enquanto eu enrolava meu dedo em seu sedoso cabelo fazendo cachos, que nunca duravam, eu acariciava seu rosto e velava seu sono, le sourire qui s’allume le regard qui s’embrume et tu t’en vas danser au ciel tu m’apaises Tu me mens puis tu glisse doucement vers le plus beau des sommeil. Eram noites tranquilas e inquietantes, de profunda espera, Tomas sempre encontrava um jeito de pernoitar em minha cama também, e eu recebia meu irmão com a mesma alegria que recebia Clarie, minha cama era pequena, mas era grande o suficiente para caber os três, contávamos estórias até adormecer em voz baixa, não podíamos fazer muito barulho e Tomas tinha que sair bem cedo e voltar para seu quarto para não sermos pegos, isso durou muito tempo e era divertido e aconchegante desde sempre, eles eram meus, eu cuidava deles como se fossem – assim como realmente eram – as coisas mais importantes de minha vida, e esse cuidado e proteção durou toda sua “conturbada” infância, como diziam as freiras da escola que nunca entenderam o porque de Clarie sempre após as orações parava atônica diante a grande cruz com Jesus morto no corredor e observá-lo, em seus olhos eu poderia vê-la sentir o sangue dele escorrendo e isso a fazia sorrir, o que obviamente assustava quase todas as outras crianças, Tomas olhava com desdém, o que era de se esperar, ele olhava assim para quase tudo, menos para Clarie, menos para mim, desde bem pequeno eu poderia ver seus olhos me observando, com a mesma admiração que Claire olhava para aquela cruz, ambos tinham secretamente suas preferencias, e eu, claro, tinha as minhas, l’amant au firmament.

Eram considerados estranhos, cada um de sua forma, eram tão diferentes apesar de esteticamente quase iguais, seus olhos azuis profundos e cabelo negro, pele alva como a neve, eram gêmeos, nada mais comum se parecerem, mas, suas personalidades de fato era um contraste.

Eu era a protetora, dois anos mais velha que eles, tive que aprender tudo sozinha, eles não precisavam disso, eles tinham a mim; se tratando de sua adolescência e seus hormônios não foi diferente. Primeiro Clarie, ela sempre foi a mais precoce, ela sempre adivinhava o que eu queria mesmo que eu não dissesse nada, como poderia esquecer daquela tarde de verão?

Estávamos de férias na casa de campo de nossos pais que tinham ido a uma corrida de cavalos, que eu e meus irmãos detestavam, Tomas estava muito ocupado aquele dia para tomar banho com suas irmãs, dizia ele, achava importante aprofundar suas leituras em George Orwell e Nietzsche, mas eu sempre achei que ele estava mesmo com vergonha, nos evitava naquela época, devia ser confuso ser o único homem da casa – papai viajava demais, e nas férias quase nunca o víamos, sempre estava em algum evento com mamãe, ele era embaixador – para eu e Clarie as coisas fluíam bem mais facilmente, era absolutamente normal ver nossos corpos mudando, como também nossos sentimentos.

Dividíamos a banheira da suíte do quarto de nossos pais como fizemos tantas outras vezes, eu escovava as costas de Claire, que me explicava pacientemente todos os estágios que alguém que fosse enforcado passaria, até perder os sentidos, caso seu pescoço não quebrasse com o impacto; para ela era a coisa mais interessante do mundo, eu tinha meus próprios interesses, simplesmente não conseguia olhar para mais nada a não ser a silhueta, aquela pele alvinha com as pequenas gotas de água escorrendo, eu a cariciava sem prestar atenção em nada, afastei seu cabelo que caia por seus ombros e sem ao menos pensar beijei sua nuca, o que não assustou Clarie; ela voltou-se a mim e me olhou com aquele par de olhos profundos, em seguida saiu da banheira, meu coração apenas batia, ela era tão imprevisível… Tanto que continuou me olhando, suspirou duas vezes e estendeu a mão para mim, eu segurei sua mão e ela me guiou até a cama de nossos pais, sem nem ao menos secar o corpo ou o cabelo, me guiou até a cama e me guiou até as nuvens, foi assim a primeira vez que fizemos amor, intenso, delicioso, natural, une symphonie de soupirs que nos corps s’harmonisent in concupiscence, dans des mouvements saccadés, le sexe des anges.

Nossos corpos nos guiaram e soubemos bem o que fazer, deitamos um tanto quanto cansadas e caladas, embora não estivéssemos com vergonha alguma, apenas queríamos respeitar aquele momento, ele era um tanto quanto místico.

Nossa paz só acabou com os momentos de tensão que precederam a porta que abriu com violência, imaginamos que eram nossos pais, era o quarto deles, mas para nossa surpresas era Tomas que ofegava forte, deve ter nos procurado pela casa inteira, ele mantinha a respiração enquanto nos olhava pasmo, suas lindas irmãs nuas e deitadas na cama de nossos pais não era exatamente a cena que ele esperava ver, nossos cabelos se entrelaçavam em harmonia, o negro dos cabelos de Clarie, o dourado dos meus, tudo tão simetricamente perfeito, enquanto nossos corpos não queriam se largar, o corpo dela sobre o meu corpo e minhas mãos a deslizar sobre o dela não conseguiram se mover após ver a porta abrindo, apenas nossos corações aceleravam, mas mantiveram a calma quando vimos Tomas, o medo seguidamente deu lugar a curiosidade.

Ele fechou a porta vagarosamente e se recostou nela, continuo a nos olhar, como um gato mirando a preza, eu continuava lá, inerte, Clarie foi a primeira a se mexer, sentou-se na cama e puxou-me para fazer o mesmo, sentei e continuei calada, ela ergueu-se, deu-me um beijo e foi até Tomas, o abraçou e falou algo inaudível para ele, foi para trás dele e começou a despi-lo ainda falando algo para ele, tirou sua calça e cueca de uma só vez, então o empurrou em direção a cama, eles se olharam por um momento, concordaram com a cabeça sem dizer nada naquele momento, então, ele veio até mim, completamente excitado, tremendo de nervoso, beijou-me o seio com violência, Clarie beijou-me a nuca, mas logo foi a procura de Tomas, ela queria recompensá-lo por termos deixado-o fora de nossa brincadeira anterior, embora tenha sido completamente divertido para os três, foi a primeira vez de Tomas e nosso primeiro ménage à trois, completamente sublime, nossos corpos se prepararam durante dezesseis anos para isso. Mais d’où vient l’émotion étrange qui me fascine? Je m’enivre de ce poison á en perdre la raison. C’est le bien qui fait mal, quand tu aimes tout à fait normal. Succombe au charme, Prend le plaisir.

Tudo era muito natural para nós três, inclusive o prazer, passávamos horas explorando nossos corpos em busca de segredos não conhecíamos, eramos muito jovens, eu acabara de receber o resultado exitoso do exame de uma importante universidade, medicina, é claro, eu era inteligente o suficiente para isso, embora a ideia não me agradasse em nada, não queria me despedir de meus amados irmãos, não agora, não poderia deixá-los, enlouqueceria longe deles, – pela primeira vez – eles pensavam da mesma forma, então só queríamos desfrutar de nossas presenças o quanto podíamos, cada minuto a sós era precioso demais, eu precisava de alguma forma tê-los só para mim, eram minha fonte de vida J’adore l’avoir dans la peau, envoûté par des idées folles, soudain mes envies s’envolent, le désir devient ma prison à en perdre la raison.

Clarie nunca deixava Tomas de fora de nossas brincadeiras secretas, como queria que ela tivesse feito o mesmo comigo em sua travessura final.

Mas as férias passaram mais rápido do que gostaríamos e logo meus irmãos estavam sendo deixados no internato e eu indo para a universidade de medicina da Costa Oeste, eu tentava me acalmar a todo custo, só teria que aguentar seis meses longe de meus amados irmãos, eles prometeram se cuidar e me ligar, mandar cartas, não me deixariam sozinha naquele lugar estranho, nunca me deixariam sozinha.

O que não aconteceu. Seis meses depois eu simplesmente só pensava nos meus dois amores, em como estariam destroçados, era o que sempre mencionavam nas cartas que chegavam toda semana, mas ao correr do tempo a frequência das mesmas foi diminuindo, o que era compreensivo pelo desgaste do tempo, eu bem sabia do rigor do colégio interno, como também estava sofrendo com a complexidade do curso de medicina, não tinha tempo para pensar em nada que não fosse estudo e neles, em como eles estavam, e ficava bolando justificativas para eles nem ao menos terem forças para me escrever cartas, eu realmente entendia, eu não tinha tal força, porque eles teriam? Clarie sempre tão sozinha por seus gostos pela morte e sua declarada vontade de montar uma coleção de facas e armas de fogo, Tomas chocando as freiras que insistiam em tentar evangelizar aquele ateu de coração, elas não o deixavam em paz, mas também não queriam abandonar a “ovelha desgarrada” como elas mesmo falavam, eram tão frágeis sob suas cascas de muralhas humanas, como estariam sem a minha proteção?

Muito bem, como eu pude constatar no dia em que voltei para casa.

Clarie e Tomas estavam mais ligados do que nunca, e nem ao menos faziam questão de disfarçar, até meus pais percebiam como sua “ligação” tivera ficado forte na minha ausência, meus pais até vieram conversar comigo o quanto isso os estava assustando, argumentaram que tinham medo de falar diretamente com eles, Clarie estava com o olhar cada vez mais vazio e começara a comprar livros sobre suicídio e mortes indolores, Tomas agia agressivamente com todos que tentavam falar algo, nem que fosse para o bem de Clarie, eles dormiam no quarto dele, as empregadas fugiram de casa ao ver os dois dividindo a cama como um casal, o quarto de Tomas que agora era totalmente negro e iluminado por velas, antigamente ele não tinha um quarto tão macabro, os empregados diziam que eles estavam possuídos por algum demônio, entre outras informações que meus pais faziam questão de ocultar, essas informações foram jogadas sobre mim com muita violência, eu nem ao menos imaginava que tudo aquilo estava acontecendo, foi a primeira vez que eles me deixaram para trás, mas essa seria só a primeira surpresa da noite.

Falei a meus pais que tentaria conversar com eles, embora meu pai tivessem me alertado que a muito eles não abriam a porta do quarto, mamãe só chorava e perguntava o que tinha feito de tão ruim para merecer isso. Seis meses foram o suficiente para meu mundo desabar e eu nem imaginava isso, como fui idiota, como fui! Eu deveria saber, eu achei que os conhecia melhor que isso, que eles me amavam mais que isso.

Bati a porta, mas ninguém respondeu, eu prendi o choro desde que cheguei, mas naquele momento não consegui conter, encostrei a cabeça na porta e chorei, para minha surpresa Tomas abriu a porta e me abraçou, senti que ele precisava do consolo que o dava na infância, sentia seu desespero, embora contido, ele sempre fez questão de conter suas emoções, mas não sabia o porque, ele argumentou que não sabia o que fazer, que precisava de mim, Clarie estava grávida e nossos pais sabiam deles e nunca iriam permitir algo assim, me perguntou o que fazer, me pediu, mais uma vez proteção, sempre fui a mais inteligente de nós três, Clarie era a mais dissimulada, mas estava quieta e com o olhar distante, pediu-me para abraçá-la e o fiz, ela disse que queria morrer, que achava que a hora que esperou a vida inteira estava chegando, Tomas não dizia nada, acho que no fundo concordava.

Eu era egoísta em demasiado, não podia suportar que eles tenham passado seis meses tão bem sem mim, que estavam dividindo algo que era só deles e não meu, que eles eram mais deles do que meus, eu os amava, eu os amava tanto, eles simplesmente agiram como se eu não fosse ninguém, ou melhor, como se fosse aquela que iria apoiá-los, eles sabiam do meu amor incondicional, eu poderia estar sendo muito egoísta e ciumenta, mas duvidei do amor deles nesse momento para comigo, eu senti ódio de Tomas por ter possuído Clarie de uma forma que eu nunca poderia fazer, que tinha algo dentro dela que era só dele, eu senti ódio de Clarie por ter enfeitiçado Tomas, por ele olhar para ela de um jeito que ele apenas olhava para mim, eu odiei, eu odiei as pessoas mais importantes do mundo para mim, os únicos que me importavam. Não consegui olhar para eles, não consegui fazer nada, sai dali, deixando para trás os apelos de Clarie e a passividade de Tomas, certamente ficaram em choque por não me terem naquele momento, fui dormir inerte em pensamentos e sentimentos ruins que nunca tivera sentido antes, dormi sozinha naquela casa, como nunca tivera feito antes. Je dors sur les roses qui signent ma croix la douleur s’impose mais je n’ose pas manquer de toi dans mes nuits dans la pluie dans les rires dans le pire de ma vie.

Foi naquela noite que tudo aconteceu, despertei com meu pai me sacudindo, dizendo que tinha acontecido uma tragédia, disse que Clarie matou Tomas e depois cortou o próprio pescoço, papai falava como que para si mesmo, para tentar entender enquanto se afastava de mim, sentava na cadeira e afundava a cabeça entre as mãos, sai dali, com a frieza que tivera aprendido com Tomas, caminhei até o escritório de meu pai e sentei-me, e então conhecei a transferir para o papel esse escrito, a minha narrativa dos fatos, o meu segredo que era de nós três.

Papai, o senhor tinha certeza que em algum momento Clarie faria isso, mas era fraco o suficiente para não fazer nada, é mais fácil jogar a culpa em sua filha emocionalmente vulnerável, não? J’accuse mon père, mamãe, a senhora preferia fechar os olhos e fingir que nada acontecia, porque não admitia escândalos em sua família, não? Sempre achou que Tomas era satanista, embora ele nunca tenha pendido para esse lado e olhava torto para ele, J’accuse ma mère. Meus gentis pais, sempre com suas conclusões tão óbvias em suas mentes e nenhuma ação. Vocês querem mesmo saber o que aconteceu?

Eu voltei para o quarto aquela noite, Tomas estava dormindo como um anjo, Clarie estava em pé com uma de suas adagas (escondia várias em seu quarto, deve ter pego uma delas e levado ao quarto de Tomas) ela apontava para ele, mas ficara ali olhando-o, seus olhos, como posso esquecer? Tinha mais amor por ele do que pela morte, ela não conseguiria fazê-lo, mais uma vez iria me deixar para trás, ela poderia mudar tudo isso, tomar um rumo de sua vida, ter responsabilidades depois de dezesseis anos em uma redoma, ou então, ela poderia acabar com isso como sempre disse desejar,mas ela não tinha coragem para fazê-lo. Então, bem, então eu o fiz.

Eu quase a assustei quando perguntei o que ela estava fazendo, ela enxugou as lágrimas e disse que não podia, que estava confusa, que desejava a morte, mas não queria morrer e deixar Tomas para trás, que não sabia como viver, que era jovem e não sabia fazer nada da vida, que queria a minha ajuda, que eu precisava ajudar ela, me abraçou com força e mais uma vez usou sua principal qualidade: a dissimulação, ela me beijou me agarrou com força disse que poderíamos viver os três como antes, que ela não precisava ter um filho, só precisávamos ser três, ela, Tomas e eu, que queria uma saída e que se eu falasse com nossos pais talvez eles me ouviriam, que aceitaria qualquer coisa que eu fizesse, qualquer coisa.

O que eu poderia fazer se não atender minha irmã amada? Eu precisava tirar a dor dela, a dor dele, não iria exitar, e para bem dizer a necessidade dela para comigo me excitava, eles precisavam de mim para ter uma saída, não poderiam ir sem mim, depois de tudo… Irônico, não? Je ressens de violentes pulsions j’ai l’impression de glisser vers le fond.

Pedi para ela se acalmar, ir buscar as roupas que pudessem, procurasse por jóias e dinheiro, que daríamos um jeito, eu disse falaria com Tomas, para ela não se preocupar, logo estaríamos juntos em um lugar que nossos pais não poderiam nos encontrar, ela acreditou, nunca duvidou de mim, largou a adaga de qualquer jeito sobre a cama e correu para o quarto, senti seus olhos azuis se ascenderem de esperança.

Tomas continuava a dormir, e eu tinha que acordá-lo, sentei encaixando minhas pernas na dele e comecei a despertá-lo com beijos em seu pescoço, não demorou muito para ele acordar, ele me perguntou o que estava acontecendo e eu apenas respondi que logo estaríamos a salvo, que logo Clarie voltaria, que ficaríamos bem, que seriamos nós três de novo e que nunca mais me deixariam para trás, Tomas ficava excitado e dizia que nunca me deixaria, tirei seu short e afastei minha calcinha para sentir seu pênis quente e latejante dentro de mim, cavalguei em cima dele como nunca tinha feito antes, afinal de contas, mal sabia ele, mas seria a ultima vez. Nossas respirações ficavam ofegantes e eu sentia o êxtase inebriar meu corpo, mas eu não tinha tempo a perder, beijei-o e sussurrei em seu ouvido que seria a sua Clarie naquele momento, como já o tinha feito algumas vezes antes, vi a adaga sentilar sobre a cama, inclinei meu corpo para pegar a adaga sem que ele saísse de dentro de mim, o que o deu mais prazer, o senti gozar dentro de mim e sorri, disse boa noite e fechei seus olhos, segurei sua boca com a mão, então peguei a adaga e cortei seu pescoço, ele arregalou os olhos, mas não gritou de pavor, assim era Tomas, atônito até seu ultimo instante. J’ai incendié mes romans assassiné mes princes charmants, j’ai effacé les empreintes et les regrets amers des amours blessés Je m’étais fait le serment de renoncer aux amants et puis un soir, il m’a touché sans égard son regard m’a brûlé la peau.

Arrastei seu corpo até o banheiro, troquei as cobertas e tomei uma ducha rápida o suficiente para me livrar do sangue de Tomas, Clarie entrou no quarto com duas malas gigantes, tinha preparado as malas para três, disse que confiava que tudo daria certo.

Eu disse a ela que tínhamos que comemorar, ela me perguntou onde estava Tomas e eu disse que ele tinha ido tentar roubar algum dinheiro de nossos pais, que não lhes faria falta, que deveríamos celebrar essa noite, que eu já tinha comemorado com Tomas, que era a vez dela, senti um certo ciúme em seu olhar, seguramente era mais egoísta que eu, mas precisava de mim.

Porem me amava em verdade, nosso líbido insaciável nos transformava em amantes perfeitas, empurrei-a na cama e abri suas pernas sentindo seu gosto incrivelmente gostoso, como eu sentiria falta disso, minha mão percorreu todo seu corpo e eu via o quanto ela gostava daquilo, duvido que Tomas pudesse proporcionar o mesmo prazer que eu a dava, ao menos eu nunca iria admitir isso, depois ela me possuiu com tanta urgência, como se, de fato, estivesse a seis meses esperando por isso, ela sussurrou que eu era o presente dela, era seu aniversário, o dela e do de Tomas, sempre juntos, até nisso, após algum tempo disso ela resolve parar e procurar Tomas, disse que ele estava demorando que estava preocupada, eu pedi para ela olhar no banheiro, ela não entendeu, mas fez o que eu pedi, ela o viu, e antes que gritasse tapei sua boca e beijei sua nuca com a mesma vontade que a primeira vez que o fiz, enquanto cortava sua garganta, ela não teve alguma resistência, seu sangue era quente, era doce, sussurrei que ela deveria estar feliz, era o momento dela, que ela iria poder curtir cada momento daquilo e depois dormir, dormir para despertar para o que ela sempre quis conhecer, a morte e seus encantos, ela não teria que se preocupar com nada, apenas dormir e viver em morte o que sempre sonhou. Dors mon ange dans l’éternelle candeur dors mon ange le ciel est ta demeure vole mon ange la vie est plus douce ailleurs.

Coloquei seus corpos um do lado do outro, a adaga cuidadosamente na mão de Clarie que parecia bem tranquila, quem sabe encontrou sua paz? Tomas tao pouco demonstrava dor ou tristeza, certamente a morte é bem mais bela que essa vida de merda, e mais uma vez eu estava sozinha, ou eu sempre fui sozinha? Não… Não, eles estão me esperando, eu sei! Eu serei apenas a ultima a sair, aquela que irá apagar a luz. Decrochez la lumiere.

Voltei para minha cama, dormi tranquilamente e fui sacudida por você papai anunciando a desgraça, não desconfiou em nenhum minuto? Vocês dois nunca nos compreenderam, nunca nos compreenderá, mas eu sei o que vocês devem estar pensando agora: que colocaram três loucos no mundo!Então, papai, quem era o mais insano de seus três filhos?

Não me importa essa resposta, logo estarei pendurada na árvore mais alta desse quintal pelo pescoço, não posso me demorar, deixei as duas pessoas mais importantes do mundo me esperando, tenho que fazer a experiencia do enforcamento para contar para a Claire e rir do Tomas sobre não existir nada depois da morte, eu os amo o suficiente para saber que nunca vamos nos separar. S’il faut mourir sur nos stèles, je veux graver, que nos rires ont berné la mort et le temps.

E de resto, nada é solidão.

On part sans savoir où meurent les souvenirs notre vie défile en l’espace d’un soupir.

Em memória de meus amados irmãos Clarie e Tomas,

é tempo de morrer para se poder amar em paz,

Pietra D’alembert.

Um comentário:

  1. Ohhh, cara!! Estou eufórico, aqui! E não falo pelas cenas picantes, não. rs

    Lindo! É a primeira coisa que posso dizer!
    Uma história com uma atmosfera liricamente densa, embebida em muita poesia.
    Inicialmente, um enredo um tanto quanto "polêmico" (embora não seja exatamente essa a questão) e subversivo. Mas, que não corre o mínimo risco de cair na banalidade, apesar desse teor, por causa da sensibilidade poética que permeia as linhas do texto.
    A construção de personagens é promissora, cativante. Introspecção aflorando a cada parágrafo, remetendo às belas construções Lispectorianas do eu - embora a estrutura seja bem mais "organizada" que o fluxo de consciência "anárquico" de Clarice. Como disse, senti uma tensão muito gostosa no decorrer da leitura. Prendeu, realmente, minha atenção - como toda boa história faz.

    Os últimos parágrafos, belos e trágicos - não podiam ter finalizado melhor.
    "E de resto, nada é solidão."
    Perfeito.
    Meus parabéns!

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